{"id":70,"date":"2009-06-08T20:52:11","date_gmt":"2009-06-08T23:52:11","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.sarmento.eng.br\/2009\/06\/08\/radio-central-de-moscou-e-a-bomba-de-neutrons\/"},"modified":"2009-09-26T08:59:07","modified_gmt":"2009-09-26T11:59:07","slug":"radio-central-de-moscou-e-a-bomba-de-neutrons","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radio.sarmento.eng.br\/?p=70","title":{"rendered":"Radio Central de Moscou e a Bomba de Neutrons"},"content":{"rendered":"<p>Durante o auge da Guerra Fria, o r\u00e1dio teve um papel fundamental e \u00edmpar na hist\u00f3ria. Era atrav\u00e9s do r\u00e1dio de ondas curtas, que tem alcan\u00e7e global, que as ideologias e propagandas eram divulgadas em larga escala e com grande abrang\u00eancia geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Enquanto os Estados Unidos se vangloriavam do &#8220;American Way of Life&#8221; criando armas de destrui\u00e7\u00e3o de massa e detonando duas ogivas nucleares no Jap\u00e3o no fim da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se uma corrida armamentista se se estendeu para as ondas do r\u00e1dio.<\/p>\n<p>E a r\u00e1dio difus\u00e3o internacional era a ferramenta de divulga\u00e7\u00e3o da cultura, pensamento, das not\u00edcias e da propaganda dos pa\u00edses alinhados com ambos os lados.<\/p>\n<p>A seguir, a reprodu\u00e7\u00e3o de uma grava\u00e7\u00e3o de um programa dos idos de 1980 da lend\u00e1ria R\u00e1dio Central de Moscou que transmitia para o Brasil, e at\u00e9 os dias atuais, por\u00e9m, como R\u00e1dio Voz da R\u00fassia, representando a linha editorial que est\u00e1 no contexto da contra-propaganda da Guerra Fria de ent\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.sarmento.eng.br\/Figuras\/cold-war-atomicblast.jpg\" alt=\"Cogumelo at\u00f4mico\" \/><br \/>\n<strong>Cogumelo at\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vamos ao texto :<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu componho poesia desde a inf\u00e2ncia e estou acostumado a olhar atentamente, a ouvir como soam as palavras mais diversas, a provar o gosto e a cor dessas palavras e medi-las pelas cordas vocais ( diz Robert Trasevinensky ), sobretudo quando se trata de palavras novas de conceitos novos. Ou\u00e7amos todos juntos como soam : missel bal\u00edstico intercontinental, duzentos megatons, epicentro da explos\u00e3o nuclear, missel de cruzeiro, projetil bin\u00e1rio, g\u00e1s neuro-paralisante, BOMBA DE NEUTRONS.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo ? Por que s\u00e3o tantas essas palavras novas, esses conceitos tecnico-militares modern\u00edssimos. O que querem de n\u00f3s esses engendros sinistros da corrida armamentista ? Ent\u00e3o, n\u00e3o sabem o que querem ? As nossas vidas. S\u00f3 as vidas, nem mais nem menos. Disse ele que todos compreendem isso, mas apesar de tudo, em muitos pa\u00edses continua a dan\u00e7a da publicidade a prop\u00f3sito dos novos tipos de armas. Fala-se das armas com respeito e pormenores, num tom elevado e carinhoso, com entusiasmo e grande eloqu\u00eancia. Faz-se publicidade dos tipos de m\u00edsseis, como se tratasse de geladeiras ou detergentes. Com a particularidade de que nessa publicidade, se junta palavras que n\u00e3o podem ir juntas de forma nenhuma. Por exemplo : A bomba de neutrons \u00e9 uma arma humanit\u00e1ria. <\/p>\n<p>Uma jovem mulher que acabara de dar a luz, pediu que lhe explicassem o que era a bomba de neutrons. O seu pedido foi atendido embora n\u00e3o tenha sido f\u00e1cil explicar-lhe, pois a jovem m\u00e3e n\u00e3o entendia de f\u00edsica nem de t\u00e9cnica. Quando as explica\u00e7\u00f5es terminaram ela disse : \u201cObrigado. Agora eu entendi. D\u00e1-se o nome de bomba de neutrons a bomba depois de ter explodido, o meu filho j\u00e1 n\u00e3o existir\u00e1 mais, em compensa\u00e7\u00e3o, o carrinho no qual ele se encontrava ficar\u00e1 intacto.\u201d <\/p>\n<p>\u00c9 essa a opini\u00e3o que tem a respeito do car\u00e1ter humanit\u00e1rio dos novos tipos de armas as pessoas normais.<\/p>\n<p>&#8211; Contarei ainda outra hist\u00f3ria : Na escola as crian\u00e7as escreviam uma composi\u00e7\u00e3o. O tema era bastante comum. \u201cQue profiss\u00e3o pensa escolher quando crescer ?\u201d Tamb\u00e9m eram habituais as profiss\u00f5es que os escolares pensavam escolher. Eles queriam ser cosmonautas, engenheiros, trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, m\u00fasicos, pilotos, artistas, marinheiros, condutores de trolegos, uma menina escreveu laconicamente : \u201cQuero ser m\u00e9dica, e quando crescer, ser-lo-ei sem falta. Naturalmente, se n\u00e3o houver nova guerra e se todos n\u00f3s em geral, tivermos tempo de crescer\u201d, acrescenta ela.<\/p>\n<p>Essas palavras foram escritas por uma crian\u00e7a de onze anos de idade. Eu n\u00e3o sei como responder a essas crian\u00e7a. Naturalmente, poderia dizer-lhe : &#8211; Mas pequerrucha, para que se aflija assim, n\u00e3o deve se preocupar, tudo ira bem. Mas essas frases alentadoras, ficam suspensas no ar, quando a pessoa ouve e sabe o que esta acontecendo hoje, agora, no nosso planeta t\u00e3o enorme e em ess\u00eancia, t\u00e3o pequeno.<\/p>\n<p>&#8211; O meu pa\u00eds, grande, poderoso e que passou por tantas provas, tem 200 milh\u00f5es de habitantes, diz o poeta, e entre esses milh\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma s\u00f3 pessoa que tenha enriquecido, pelo menos uma s\u00f3 vez com os armamentos. N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 pessoa, que obtenha vantagem, que obtenha lucro com a produ\u00e7\u00e3o de novos tipos de armamentos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei que em outros pa\u00edses, existem pessoas assim. Certamente n\u00e3o s\u00e3o muitas, mas n\u00e3o sei por que acontece que s\u00e3o hoje em dia justamente elas as que imp\u00f5em ao mundo o seu ponto de vista louco e fazem propaganda das id\u00e9ias man\u00edacas de guerra nuclear limitada, do primeiro golpe vitorioso, etc.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, elas ainda fazem com que muitos meios de informa\u00e7\u00e3o de massa se transformem, com j\u00e1 se registra na pratica, em uma parte integrante dos meios de exterm\u00ednio em massa. O que fazemos n\u00f3s, personalidades culturais, o que fazemos n\u00f3s, pessoas serias que pensam, que raciocinam e escrevem. Por que as nossas vozes hoje em dia n\u00e3o soam com a for\u00e7a e energia devidas ? <\/p>\n<p>Acaso n\u00e3o est\u00e1 claro que no mundo n\u00e3o h\u00e1 e nem haver\u00e1 uma id\u00e9ia que justifique o come\u00e7o de uma guerra nuclear, que \u00e9 a amea\u00e7a na realidade do exterm\u00ednio de todo o g\u00eanero humano ? Acaso n\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos, n\u00e3o s\u00e3o doentes aqueles que pensam em obter vit\u00f3ria nessa guerra ? Eles se parecem com uma pessoa, que morando num pr\u00e9dio de madeira, de muitos apartamentos e tendo brigado com os vizinhos do andar, decide uma vez vingar-se. Para isso, joga gasolina na porta dos seus apartamentos e bota fogo. Embora a vingan\u00e7a seja aparentemente eficiente, a alegria dessa vingan\u00e7a, como compreender\u00e3o, distara muito de ser desanuviada, e sobretudo ela ser\u00e1 muito breve, pois. Fogo, \u00e9 fogo para todos. Mas se durante qualquer inc\u00eandio, existe, apesar de tudo uma esperan\u00e7a de se salvar, se uma casa em chamas, se pode, apesar de tudo sair rua afora, correr ou mesmo saltar, digam por favor : O que ser\u00e1 de n\u00f3s, moradores de enorme casa de muitos apartamentos que se chama Planeta Terra ? O que ser\u00e1 de n\u00f3s, quando essa casa arder num s\u00f3 momento, onde nos salvaremos ent\u00e3o ? Como sairemos ? Para onde saltaremos ? <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, no Ocidente eu vi uma propaganda muito chique de ref\u00fagios anti-at\u00f4micos. Pois bem, para certas pessoas, em primeiro lugar para os donos das firmas de constru\u00e7\u00e3o que fazem estes ref\u00fagios, esses mundos de concreto, podem parecer mesmo uma sa\u00edda magnifica da situa\u00e7\u00e3o que se criou.<\/p>\n<p>Mas eu quero ser mais preciso. ISSO NAO E NENHUMA SAIDA, \u00c9 S\u00d3 UMA ENTRADA, ENTRADA SEM SA\u00cdDA. E n\u00e3o se trata s\u00f3 de que se fechem definitivamente os c\u00edrculos da historia da civiliza\u00e7\u00e3o humana, desde as cavernas naturais da idade da pedra, at\u00e9 as cavernas artificiais da idade at\u00f4mica, repito, n\u00e3o se trata disso, trata-se de que essas cavernas caix\u00f5es, nunca poder\u00e3o ser, como se diz nos materiais de propaganda, casulos do futuro, com todo seu conforto, eles servem mais para uma loucura lenta do que para a vida.<\/p>\n<p>A desgra\u00e7a geral que paira sobre nosso planeta, n\u00e3o poupara ningu\u00e9m, mesmo que procurasse esconder-se, esperar do outro lado dos oceanos mais amplos, ou por tr\u00e1s das montanhas mais altas. A desgra\u00e7a atingiria at\u00e9 os pa\u00edses super nao-alinhados, super neutralistas.<\/p>\n<p>Talvez, demorasse um pouco, mas atigilos-ia sem falta. Pois as chuvas e os ventos radioativos n\u00e3o sabem o que \u00e9 fronteira nacional, e \u00e9 duvidoso que o vento radioativo para ante a placa : \u201cPropriedade privada\u201d.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, a morte amea\u00e7a a todos, \u00e9 o que dizem os cientistas e m\u00e9dicos, \u00e9 o que dizem especialistas nos que se pode e deve crer. \u00c9 doloroso, \u00e9 pena pensar que a historia da humanidade pode terminar assim, de repente, asfixiar-se, acabar-se. \u00c9 doloroso, \u00e9 pena pensar que n\u00f3s, homens, trair\u00edamos assim n\u00e3o s\u00f3 a n\u00f3s pr\u00f3prios, mas a mem\u00f3ria de todos nossos antepassados, mas invalidar\u00edamos tamb\u00e9m, milh\u00f5es de vidas, milh\u00f5es de vidas de cidad\u00e3os da terra que deveriam viver amanha e depois de amanha, mas que nunca ir\u00e3o nascer nunca mais.<\/p>\n<p>\u00c9 doloroso, \u00e9 pena pensar que a cultura, breve e eterna, a cultura secular do nosso planeta, se transformaria em poeira, em nada, em cinzas radioativas, diz finalizando o poeta Robert Trasevinensky. Isso n\u00e3o se pode admitir de forma nenhuma, por isso a voz da raz\u00e3o, a voz do cora\u00e7\u00e3o, a voz da consci\u00eancia das personalidades da cultura, deve soar sobre o mundo. N\u00f3s devemos dizer a nossa palavra, cada um na medida da sua compreens\u00e3o, na medida do seu talento, na medida da for\u00e7a da sua voz, essa hora j\u00e1 chegou.<\/p>\n<p>Ela chegou para todos, ela chegou justamente hoje, porque depois ser\u00e1 tarde, tarde demais e, sobretudo, tarde para sempre \u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.sarmento.eng.br\/Figuras\/TIME_Magazine_September_17_1951_cover.jpg\" alt=\"Capa da Revista Time de 1951\" \/><br \/>\n<strong>Capa da revista Time de 1951 caracterizando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como grande ame\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><code><br \/>\n<script type=\"text\/javascript\">\nvar gaJsHost = ((\"https:\" == document.location.protocol) ? \"https:\/\/ssl.\" : \"http:\/\/www.\");\ndocument.write(unescape(\"%3Cscript src='\" + gaJsHost + \"google-analytics.com\/ga.js' type='text\/javascript'%3E%3C\/script%3E\"));\n<\/script><\/p>\n<p><script type=\"text\/javascript\">\ntry {var pageTracker = _gat._getTracker(\"UA-7192117-1\");\npageTracker._trackPageview();\n} catch(err) {};\n<\/script><br \/>\n<\/code><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o auge da Guerra Fria, o r\u00e1dio teve um papel fundamental e \u00edmpar na hist\u00f3ria. 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